#1. Adeus ano velho/Goodbye, last year

[Obs. Ilustração da semana no fim do post & English version just below]

 

 

Veio mais como um “adeus ano velho” do que como um “feliz ano novo”.

Veio feito uma bexiga que explode no meio da sala, como aquele susto da porta que bate com a ventania, como um “de repente, não mais que de repente”. E de repente era 2016 e era um novo país pra viver, uma casa para montar, dias para preencher com comos e com porquês. No 2016, de repente existia tudo, e o tudo era tão drástico e evidente quanto a digestão de um churros frito recheado de doce de leite.

No feliz ano novo só não existia, mesmo, um eu residente e domiciliado dentro mim – e então o calendário virou com meu espírito perdido em outras terras e em outras memórias, arrastando correntes pelas salas todas desta cidade, meu rosto irreconhecível no espelho do banheiro. Não, 2015: eu não queria que você tivesse ido embora.

Só que é da natureza do tempo ser imperdoável e de não tolerar. Mais cedo ou mais tarde, a gente sabe bem, é preciso deixar de resistir.

Foi numa manhã de sábado. Menos que dobrar uma esquina (porque o tempo também é generoso pra quem quer), e o elo perdido me disse, assim:

– Pode até ser que aquilo que não tem mais lugar só esteja esperando o seu

: sim 

para poder, enfim, partir.

* * *

[English]

Like a ghost dragging the chains of past memories and dreams across the rooms of my new apartment, so I did not welcome 2016 as a happy new year. Rather, I moaned a resented “goodbye last year”, put on my pajamas and then went to bed. No, 2015: I really did not want you to leave me.

Yet Time, as we know, is not so much of a forgiving kind. Sooner or later we will have to stop resisting and begin to really See.

The day I gave up and accepted to surrender completely to the saying goodbye, Time came visit me during my dreams. Among galaxies and stars, planets and somebody else’s forgotten dreams, it whispered a silent secret in my left ear:

– It can very well be that that which has no longer a place is just wanting for your

: yes

, so that it can finally  leave.

Adeus
#1. Adeus (nanquim e aquarela, 2016)
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