#2. A estrela negra/The black star

[ilustração desta semana no fim do post& English version just below]

 

Como quem anuncia que a rúcula da salada está misteriosamente estragada,

“acabou”,

, ponto final

.

E lá se vai meu casamento internacional, com seus coms e porquês, no naufrágio das traduções que um dia a gente fez acontecer: aquelas meias-compreensões maravilhosamente absurdas que viajavam continentes numa terceira língua inventada.         (Nós).        De vez em quando, eu gostava, a gente ia lembrando das nossas infâncias alienígenas em dois tempos e em dois hemisférios opostos – essas coisas que, por falarem a um Outro não-óbvio, tinham que cruzar as pontes que a gente ergueu entre Brasil e Alemanha. Éramos uma Babel que se dobra em si mesma porque decidiu pela lucidez: o amor é do terreno do risco. O impossível só pode ser um gesto de coragem.

Meu amor covarde, no fim das contas – diga-se bem -, entendi que pra você foi mais fácil me remover. Eu, a um só tempo interlocutora e obstáculo. No silêncio imposto, eu falo tudo, você cala. Entende-se nada.

O Bowie morreu faz uma semana. Eu, que há dez anos tatuei uma estrela preta no ombro, decidi atravessar o buraco negro da ausência com minha espaçonave imperfeita, a melhor que existe para voar galáxias. Neva na Alemanha. Em Brasília, a quilômetros de Frankfurt, as mangas apodrecem no chão quente de janeiro. Caminho sem propósito e  vou devolvendo as frutas podres à grama, onde tudo ainda tem chance de nascer de um outro jeito. Meu espírito é cheio desses sonhos pequenininhos:

– Deveria ser probido morrer na calçada.

* * *

Like a salad that went bad overnight,

“it’s over”, you did say

, that’s all

.

And there it goes: my transoceanic ties made invisible along with the translations we were so good at creating. A tsunami has drowned the whole country of the absurdly beautiful half-understandings that for so long had crossed continents in our very invented language. (Us).   We were a Babel that had agreed to get down to its knees: love pertains to the realm of risk. The impossible requires nothing else but courage.

My dearest coward love, I understand you found it easier to remove me. In the end, I was both your clearest mirror and your obstacle. In the room of silence, I am the one whose voice is still heard. You don’t say a word. And understanding has reached nobody.

The news announce David Bowie died a week ago. Holding the black star stamped on my left shoulder, I embark in the spaceship of absence to discover new galaxies. It’s snowing these days in Germany. In Brasília, kilometers away from Frankfurt, mangoes are getting rotten on the boiling-hot concrete ground. I walk around with no direction and return fruits to the grass – right to that place where everything on Earth has a chance of getting born once again. My spirit is made of those little dreams:

– Nobody should be left to die on the sidewalk.

TheBlackStar
#2. Black star (nanquim e aquarela, 2016)

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