#8. Carta de despedida para o mundo real/A goodbye letter to the real world

Humanity i love you because you
are perpetually putting the secret of
life in your pants and forgetting
it’s there and sitting down

on it
and because you are
forever making poems in the lap
of death Humanity

i hate you

(e.e. cummings)

Se é pra ser um par de olhos, que sejam flutuando no nada. Se é pra ser casa, que eu seja os espaços secretos onde dá pra dançar Radiohead aos sábados à tarde sem ninguém de testemunha. Que seja a mesa enorme manchada de nanquim, minha mão suja de tinta tipográfica dourada, e as farpas que entram embaixo da unha de cutícula comida enquanto eu entalho baleias de madrugada. Se é pra ser corpo, que seja de empréstimo, quitinete de aluguel, minha máquina anônima registradora de anos.Porque entre as minhas costelas, o que acontece é um quarto de dormir sem armário entupido de peixes coloridos, bem no mar de um fundo que é impossível de alcançar.

Meu querido mundo real dos sofás de três lugares, sentidos e desejos, medos e sonhos, esperanças e vontades,  planos, idéias e virtudes, todas elas. Mundo real cheio de móveis e utensílios domésticos e de botões de roupa, cabides, escumadeiras e sabonetes líquidos. Faz tempo que eu tento dar um grito, mas seu braço é curto demais pra alcançar a minha voz. E como 2016 me nasceu para as separações e as mortes de  toda sorte, então chegou a minha hora de parar de resistir, para te dizer

: mundo real, espero que um dia você me perdoe, mas estou deixando você.

***

If I am (indeed) meant to be a pair of eyes, so may I be the ones that float in nothingness. If I am to be a home, may I be the secret spaces where I can dance to Radiohead on Saturday afternoons. May I be a table painted in stain with Indian ink, my hand dirtied with sticky golden paint, black spots of watercolor under my not-so-taken-care-of nails while the night falls and I silently sit to engrave whales in my living room. If I am to be body, may I be a borrowed one, rented house, an anonymous year calculator.

My dearest real world made of comfortable couches, senses and desires, fears and dreams, hopes and wishes, plans, ideas and virtues, each one of them. Dearest real world made of furniture and domestic goods, coats, hangers, spoons and perfume. I’ve been trying to scream for a while but your arms seem to be too short to reach my voice. And because 2016 was born to bring up separation and death of all sorts, now it came my time to stop resisting and finally come clear to you

: dearest real world, I hope one day you’ll forgive me, but I’m leaving you for good.

 

#8.WhaleLowRes
#8. Whale (aquarela e nanquim, 2016)

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