#9. Eu não sei o que quer dizer perdão/I do not know what forgiveness means

[English version below & Ilustração da semana no fim do post]

Eu não sei o que quer dizer perdão.

Não sei até onde o perdão alcança, e nem de onde ele vem. Eu não entendo o que acontece (no tempo) quando a gente perdoa. Não posso dizer se com ele a gente esquece, se encontra um novo começo, se a gente retoma tudo de onde deixou. Não entendo de resultado, de redenção e de cura, de efeitos terapêuticos de qualquer sorte. Eu não sei nada sobre perdão.

Eu não sei o que quer dizer perdão – eu, que queria tanto saber que diferença existe entre perdoar e entender. Porque nesse silêncio, pra te dizer bem a verdade, eu não entendo nada. Se eu perdoasse, pode ser que eu apagasse as memórias, que eu aceitasse que tudo tinha (mesmo) que acontecer. Eu justificaria os seus erros, autorizaria a legitimidade do tudo aqui dentro em fragmentos. O mundo com carimbo, minha assinatura dizendo que pode arranhar meu espírito, ponta seca de arame farpado bem ali, onde o sagrado pede para ser guardado do que não pode ser. Se eu perdoasse.

Se eu perdoasse, talvez esse aperto do meu senso de justiça desaparecesse, e eu iria embora daqui, eu e aquilo que eu acredito que deveria ser (mais que tudo), minhas verdades mais escondidas, o meu confiar. Se eu perdoasse, talvez eu afrouxasse tanto daqui que seria assim, de voar no espaço, costelas estilhaçadas, luz cristalina liberada do humano, eu e mais ninguém, livre, só, sem amarra e nem conexão, eu diria adeus ao mundo, meu último nó, meu egoísmo que é a maior pureza, desfeita daqui e de mim. Descoagulada.

Mas por enquanto eu não sei o que quer dizer perdão.

 

* * *

[English]

I do not know what forgiveness means.

Do not know its reach, do not know where it comes from. I do not understand what it is that happens in time when there is forgiveness. I am not clear whether it meets forgetting, whether it touches a new beginning, whether it entails a start from anew or a continuation from there where we left. Do not know about results, redemption and cure, about healing and the like. I know nothing about forgiveness.

I do not know what forgiveness means, and I wish I could know better about the difference between forgiving and understanding. Because in this silence, let me tell you, I can understand nothing. If I could forgive, would all that you did be erased as though it was supposed to happen? Would I be justifying your mistakes, my open heart ripped apart, would I say yes to the world scratching my spirit? Would I give permission to dry pointed barbed wire right there, where the sacred asks to be preserved over the ugliness of empty, meaningless disconnection?

If I could forgive, maybe the grip onto my own sense of justice would disappear, and so would I also go, along with  my core beliefs, ingrained values, deepest feeling of trust. If I could forgive, maybe all that I believe would dissolve, maybe I would just fly into space, ribs broken, stabilities abandoned, pure light liberated from human, me and nobody else, free, alone, disconnected. U n co a g u la t e d.

But so far I don’t know what forgiveness mean.

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#9. Emprisoned light (aquarela e nanquim, 2016)

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