#10. 36

[English version below&ilustração no fim do post]

Brasília, 1 de maio

Longe do bom e do ruim: só um espaço vazio enquanto eu caminhava da padaria de volta pra casa. Distante quilômetros da tristeza, perceba que é só na imaginação que o nada é ruim.  O que tinha no dia do meu aniversário de 36 era só o normal do céu sem nuvens de Brasília, a revolução solar que me dizia : um a mais, do horizonte os 40 dizem olá.  Já sei que não sei e que nunca vou saber coisa nenhuma.

No aniversário de sentimentos não extraordinários, o mundo sentou comigo na frente do prédio e a gente trocou segredos. Eu e Você, nós dois avessos, sinônimos, dentro e fora tudo igual              no nonsense destes últimos tempos humanos. Tá tudo tão esquisito, meu senhor, que a gente não cabe mais na fantasia, e a minha boca paralisada não consegue pronunciar verdades últimas e nem conclusões. Sem  Nuncas e nem Sempres, a gente descobriu o truque do mágico e a vida ficou sem as ilusões.  Verdadeira, pelada e real.

Na Índia existe uma divindade feminina chamada Kali Ma. Ela leva um colar de crânios no pescoço e surge em fúria pelo mundo, arrancando as cabeças das pessoas. Chinamasta, outra deidade, é menos conhecida e um pouco mais underground, porque pensam que cultuá-la pode trazer maldição. Em vez de impor a lei de fora, ela começou destruindo a ilusão de dentro: arrancou a própria cabeça e oferece em sacrifício pra todos aqueles que quiserem se decapitar também.

Dizendo assim: outro jeito de destruir a ilusão é caminhar com as coisas no devido lugar.

* * *

[English]

Brasília, May 1st

And then it shifted, a sense of empty space in my belly as I walked from the bakery. Sorrows gone and no surprises but the Sunday up in the cloudless sky, solar revolution telling me, casually: getting older, forties by the door, I still know nothing.

In my 36th birthday of no feelings, the world felt disillusioned. Me and you, inside out as synonyms of ourselves, we mirror each other in the nonsense-ness of these late human times.  We’re waking up from the dream, unveiling the trick of the magician. Yes: sooner or later we’d have to grow up. To the In Between Certitudes, lost in a forest that fits neither Optimism nor Pessimism, holding a mouth that knows no Always’ and no Never’s. We’re drifters.

There’s a most favourite and powerful goddess in India named Kali Ma, skulls wrapped in her neck, sword that chops illusions’ heads from the way, clearing the world from misunderstanding. Chinamasta is a bit like her, but not quite. In her fierceness aspect of love, she prefers to destroy from inside and so she starts by cutting off her own head. Knives sharp deep into the soft flesh. Wisdom is like walking with everything in the right place.

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#10. Vajrayogini ou Chinamasta (aquarela e nanquim, 2016)

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