#12. Para Paulo K./To Paulo K.

[English version below&Ilustração da semana no final do post]

 

Morreu o Paulo. Tinha 70 anos e me levava para passear quando eu tinha 11 e morávamos longe daqui.

Morreu dormindo: trabalhou até tarde, deitou-se e no outro dia não acordou. Minha mãe ligando. Paulo já não está.

Morreu o Paulo, e eu lembro de repente que tinha uma década que a gente não se via. Muito estranhamente, os dois vivendo nessa terra alienígena chamada Brasília, uma noite nós na frente do meu prédio, só um abraço, e ele foi. Disse que sentia saudades, e eu disse que tinha saudade, também.

Me pergunto agora por que nunca liguei pro Paulo. Por que nunca mandei uma cópia do meu livro pra ele. Minha estupidez feita de erros minúsculos. Se eu pudesse voltar no tempo, Paulo, naquele dia eu teria te convidado pra entrar.

Entre as reticências de todos os seres amados que habitam essas entrelinhas inevitáveis de um mundo esquecido, vivem ali as memórias do melhor natal que nós dois passamos juntos numa floresta. Crianças e adultos hoje já não existem mais. A gente cresce. Mas a gente nunca vai crescer.

2016, este ano desgraçado em que tudo morre. Amigo avós país casamento. Sobra bem pouco, quase nada. A tempo: esta é uma carta de despedida e um pedido aberto de desculpas pra todos os amigos que deixaram de entrar.

* * *

Paulo died. He was 70 and used to take me for walks when I was 11 and lived away from here.

He died while sleeping: worked until late, went to bed and did not wake up. Mom called me. Paulo no longer is.

Paulo died, and I suddenly remember that we did not see each other for a long time. Our last meeting was ten years ago. Life’s strange ways: both of us living is this alien land called Brasília. We hugged each other in front of my building. He said he missed me. “I miss you, too”, my reply.

I ask myself why I never called Paulo. Why I never sent him a copy of my book. If I could come back in time, Paulo, I would ask you to come in that day.

Between the suspension of all the loved ones who live in these inevitable between-the-lines, inside the memories of my best Christmas in the forest, children and adults ceased to be. We grow up. We’ll never grow up.

2016, this fucked up year in which everything dies. Friend grandmothers country relationship. Very little left, almost nothing. This is a goodbye letter and an open apologies to all the friends I forgot to invite in.

 

Costura_1
#.12. Self-portrait (aquarela, nanquim e costura, 2016)

 

.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s