#13. Pra ela/To her

[English version below & Ilustração da semana no fim do post]

Brasília, 27 de maio

Não consigo escrever. Noite e dia nessa sala de mesa e janela, só desenhar. 33 homens estupram uma menina de 16 anos no Brasil e sobem um vídeo online. O delegado vai pisando devagarinho na cabeça dela, que estava desacordada, “precisamos investigar se teve consentimento”. Ai.

E eu, que comecei tanto texto nessas últimos dias, fico aqui por terminar todos, nas ausências mudas de meio e de fim. É que esse estupro me faltou na coerência das linearidades. Ninguém nunca vai entender. Queria escrever um texto que construísse pontes e equações na prova real de que ela também sou eu, e que eu e ela e nós somos todas mães de vocês.  Queria escrever uma coisa qualquer que de tão bonita tirasse duzentos e quarenta e sete pares de olhos da nossa bunda cara peitos bocas e unhas, que levasse ‘gostosa’ de novo para a seção dos adjetivos de comida, e que removesse os resíduos de uma vida inteira sendo vitrine inevitável.  Queria rasgar a roupa na frente do prédio e sair pelada gritando da minha vida e da vida da gente. Queria escrever um texto de redenção para as mães do mundo. Queria cantar uma canção de ninar pra dormir as filhas, também. “Precisa ter medo não, meu amor. Não existe bicho-papão no mundo real”.

* * *

[English]

I haven’t been able to write. Night and day in this small apartment, all my senses going into the formless trance of drawing. A couple of days ago, 33 young men raped a 16 year-old girl in Brazil and uploaded the video online. Such a party. The investigations here go slow: “maybe she consented”, says the police. Ouch.

In the following, I began so many texts but can finish none. The rape has lacked me in linear endings. Nobody will ever understand. I’d like to write a bridge made of equations that revealed I am her she’s me I you she me us all. I’d like to write a text so beautiful as to remove the pairs of eyes from our legs bums mouths breasts nails. I’d like to tear my clothes apart, I’d like to walk the streets naked screaming my life and ours as well. I’d like to write a text to redeem the lives of mothers from all places and a lullaby to the daughters we are. “Don’t be scared, child. There are no monsters in real life”.

#13.Lullaby
#13. Lullaby  (aquarela e nanquim, 2016)
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