#14. Travesseiro/Pillow

[English version below&Ilustração no fim do post]

Brasília, 14 de junho

Virou o primeiro de janeiro de 2016 e desgostei de conversar. Não é ranzinzez, mas é um pouco. Me deu falta do que dizer. Virou o primeiro de janeiro e também comecei a escrever aqui nesse blog toda semana quando na verdade me habitou um lugar cheio das faltas de tudo. A coerência não é a minha virtude.

Perdi o costume das histórias, talvez. E quando acontece da minha boca abrir é sem ponto final, de alguém que desaprendeu pausas, convenções e outras formas de pontuação. Me sai uma baleia da garganta, perco tudo, volto pra casa sem me reconhecer no quem disse. Deixo sair algo que deveria ter ficado em santuário, as frases todas, por isso prefiro não.

Nos dias de estar quieta, o mundo inteiro cabe na minha traquéia. Água-viva, arraia, alga, o polvo que solta tinta preta nas paredes desse estômago de fundo do mar. Fossas abissais é o mesmo que dizer que não tem fim. Aqui, onde vivem os peixes de três olhos com patas. Babel inteira no meu calar, essa densidade leve das histórias lindamente preservadas da transgressão deste mundo limitado em palavra fazendo frase. Me evito de sufocar no tropeçando em letras, por isso deito.

Nos fins de semana, sozinha no colchão da sala, deixo horas passando de olho fechado. Alguém invisível vai penteando as linhas, e acordo com gosto de sabonete na boca.

* * *

So 2016 came in, and somewhere around the corner I lost the will to talk. It is no grumpiness, but it’s a little bit of it. The not having what to say. So 2016 came in and somewhere around the corner I also started to write this blog every week though in fact the continent of lacks has inhabited me. Coherence is not my virtue.

Maybe I lost the habit of stories. And the moments my mouth gets open, it is so in no final dot, from the someone who unlearned pauses, conventions and the whole set of grammar rules on punctuation. A whale comes out through my lips, and I return home not recognizing the one who said it all. Something that should stay inside has left its sanctuary, phrases and the like, so I prefer not.

During my days of being quiet the universe itself fits my throat, perfectly. Jellyfish, seaweed, the octopus releasing his black ink all the way across the bottom of my stomach. Ocean trench is another way of  defining the infinite. Right here, amid three-eyed fishes walking around in their feet. Babel Tower set in my quietness, the light density of stories beautifully preserved from the transgression of a world that lives on phrases. To avoid suffocating, I lay down.

Alone on the floor my living room, I leave the hours pass by outside with my eyes shut. An invisible someone combs the lines, and I wake up with a taste of soap in the mouth.

#14. Night dress
#14. Night dress (nanquim e aquarela, 2016)

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