#27. Quase/Almost

[English version just below&ilustração no final do post]

Quase sempre é mais ou menos bom, de um jeito sem pensar. Quase sempre eu esqueço que um dia devia ter sido de outro jeito, que era pra ser outro país, que a neve agora começa em Berlim, em Leipzig, em Frankfurt. Em janeiro o amigo explicou como ia ser: cada dia é um mais, Mari, e quando você se der conta já atravessou a rua que leva pra padaria lembrando só de quantos pães pra hoje e de quantos pra amanhã. Quase sempre. Os móveis mudaram de lugar, e aqui já é mais casa, tenho minha nova árvore preferida no final da Asa Norte. Minha rota que leva pro trabalho, uma estante de livros coloridos que não existiam antes, e quando vi já fazia um ano. Quase sempre eu não lembro. A não ser pelas mangas no pé, agora. Você, que nunca viu uma árvore assim, que nem sabe a diferença entre manga grande e pequena, madura ou verde com sal, e de longe eu vou desenhando o seu olho de primeira vez, a sua boca que mastiga gostoso com casca, os dois dentes da frente atravessados na medida, aquilo que o frio nunca vai poder te dar. Eu, só. Penso agora, porque é época de manga, pra onde quer que eu olhe, e porque tem manga em toda parte. Às vezes eu queria não lembrar. Quase sempre.

[English]

Almost all the time is like this: not good, not bad. I don’t think much about it. Sometimes I forget that it should be otherwise, that it should be somewhere else, that the snow is falling over Berlin, Leipzig, Frankfurt. It was January when a friend told me how it would be like: each day is born anew, Mari, and at some point you’ll catch yourself crossing the streets wondering which kind of bread you gotta get for dinner, nothing else. Almost all the time. The furniture is now arranged differently, the apartment feels a bit more like home, I already have a favorite route to go to the office. Shelves full of colorful brand new books. It’s been an year, anyhow. Almost all the time. Except for the mangoes. You who have never seen a mango tree. You who don’t know the difference between small and bigger ones in taste, who have never tried a green mango with a tiny bit of salt. And here I am now, drawing your eyes who look at them for the first time.  Mouth, hands, teeth.I think about all of this because it’s mango season here, and they’re everywhere in sight. Sometimes I wish I did not remember or thought about that. Almost all the time.

monstro_lowres
Monstro (aquarela e nanquim, 2016)
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s